Bando de Teatro Olodum há 30 anos usa arte para militar e contar histórias do povo baiano: ‘Nosso instrumento de luta é o palco’

   Ao passo de completar 30 anos, o Bando de Teatro Olodum continua observando as esquinas e becos de Salvador para escrever espetáculos. Como resultado, o texto, a dança, as expressões artísticas se complementam no palco com o objetivo de apresentar a história do povo baiano. Nunca se trata de mais uma peça, mas de um grito social.

“Nós somos uma companhia de teatro assumidamente negra. Então, essa companhia de teatro, assumidamente negra, não pode, não tem o direito de falar que está tudo bem, porque não está. A nossa ferramenta, o nosso instrumento de luta é o palco. A nossa militância é o palco. É arte, entretenimento, mas reflexão”, disse Jorge Washington, ator e um dos fundadores do grupo.

Toda essa forma de fazer teatro surgiu em 1990, em Salvador. Desde então, a Companhia esteve atenta às discussões contemporâneas, abordando problemas que continuam presentes na sociedade.

Obras como “Essa É Nossa Praia”, que fala sobre temas como intolerância religiosa, ideologia do branqueamento e marginalidade. E “Cabaré da Rrrrrraça”, que levou ao palco discussões sobre negritude, são exemplos de espetáculos.

Nessas três décadas, o Bando vem colecionando desafios, conquistas e prêmios. Por isso, carrega no currículo o Prêmio Braskem de Teatro de melhor espetáculo adulto de 2006. E também o de Cidadania em Respeito à Diversidade, promovido pela Associação da Parada do Orgulho GLBT de São Paulo (APOGLBT), em 2010.

Neste mês que celebra o novembro Negro, período marcado por mobilizações de combate ao racismo e garantia dos direitos da população negra, o G1 conta a história dessa equipe que milita pela causa durante todo ano.

 

História

 

O Bando de Teatro Olodum nasceu em 17 de outubro de 1990, depois de uma parceria entre o diretor Marcio Meirelles e o Grupo Cultural Olodum. Como conta Jorge, um dos motivos de montar a companhia foi eliminar um incômodo de não ver negros na linha de frente de espetáculos realizados no estado.

“O bando nasce dentro de um cenário de muito anonimato das artes negras de um modo geral. Você tinha alguns atores negros, em algumas produções. E estar em uma capital, que é Salvador, onde nós somos 80% da população e você não ser vê nas artes. Isso incomodava muito” disse.

O primeiro espetáculo estreou em janeiro de 1991 – três meses após a criação do grupo – em uma das salas de um casarão da antiga Faculdade de Medicina da Universidade Federal da Bahia (Ufba), no centro histórico da capital baiana. Vinte e dois atores formaram a equipe que apresentou “Essa É Nossa Praia”, encenada por Marcio Meirelles e pela diretora francesa Chica Carelli (co-fundadora da companhia).

Apesar disso, os primeiros passos do Bando foram questionados por parte da cidade. Coube apenas ao público do centro de Salvador, onde o grupo se instalou, o papel de reconhecimento do perfil vanguardista que as obras carregavam.

“A comunidade abraçou de corpo e alma. Tinham alguns que relacionavam muito a gente com uma comunidade marginalizada”, Edmundo Muniz, um dos atores do grupo.

“Quando o grupo começa a apresentar esses espetáculos mostrando esses personagens para cidade de modo geral, a cidade rica não se identifica. Ela começa a falar. Mas a comunidade (região do Pelourinho onde começam as apresentações), de modo geral, se identifica, sim. Com aquela baianidade, com aquele modo de falar. Mas a cidade demorou muito para se identificar com o que a gente estava fazendo”, completou Jorge.

O segundo espetáculo veio seis meses após a estreia da primeira peça do grupo. A montagem “Onovomundo” foi responsável por percorrer o caminho do sagrado, através da abordagem cênica das nações do candomblé presentes na cultura da Bahia.

Em 1992, o Bando rompeu a geografia baiana para expandir o trabalho por outras regiões. Nesse primeiro momento, o estado do Rio de Janeiro, na região sudoeste do Brasil, foi o primeiro a receber as peças “Essa É Nossa Praia” e “Ó Pai, Ó!”.

Na sequência, no intervalo entre 1996 e 2003, a companhia ultrapassou as fronteiras levando as obras para locais como Londres, Angola, Portugal e Alemanha. Em 2006 e 2010, o grupo ganhou importantes prêmios pelo trabalho desenvolvido.

Em cartaz: A história de um povo

“Um grupo de atores negros que sofre tudo dentro de uma sociedade racista, como é que sobe naquele espaço sagrado que é o palco sem falar [sobre isso]? Sem ter essa referência? É preciso estar o tempo todo batalhando, falando e militando. No palco, a gente leva desabafo, mas é assim? Toma aí! Olha o que está acontecendo com a gente. É um desabafo coletivo”, Merry Batista, atriz do Bando.

As palavras de Merry traduzem o trabalho que o Bando de Teatro Olodum faz desde a criação. Como eles contam, as peças não são mais uma, mas as que retratam as labutas de um povo.

As técnicas estão presentes. As referências clássicas também têm seu lugar. Apesar disso, o que diferencia o grupo de outros é o comprometimento em retratar, de perto, problemas sociais.

“A gente faz um desabafo social, racial. A gente está engasgado com muitas coisas. A gente sai de casa, nós somos moradores de periferia, nós somos negros. A gente vai no banco e a porta trava. A gente sai de casa e sofre uma abordagem policial. A gente sai de casa para vir para o teatro ensaiar e recebe uma bala da polícia. Eu vou falar a poesia de Shakespeare? Eu vou dizer que está tudo bem, tudo lindo? É um desabafo cotidiano. É uma afirmação o tempo inteiro”, disse Jorge.

Além das próprias narrativas, os atores acionam as ruas e becos da capital baiana para construir os espetáculos. Antes mesmo dos ensaios e dos ajustes, o laboratório é feito a cada passo, ali mesmo, na rua.

“A gente busca se aproximar da nossa realidade. Falamos das realidades de ruas, becos e vielas porque a gente sabe o que está acontecendo. Eu lembro que precisava fazer um personagem que era uma prostituta e fui para ladeira da montanha para conversar com ela. Quando você senta e conversa com essas pessoas, você vê uma gama de talentos, conhecimentos e sobrevivências. É fácil dizer que eu sobrevivo. Mas é fácil dizer que uma mulher naquelas condições sobreviva a cada dia? Como não falar dessas pessoas?”, questionou Merry.

30 anos: Conquistas e desafios

As três décadas de história só vão ser concretizadas em outubro de 2020. Apesar disso, a companhia vem montando apresentações especiais para celebrar a data. Durante as primeiras semanas deste mês, por exemplo, vários espetáculos foram remontados e apresentados no Teatro Vila Velha, casa do grupo, em Salvador.

Nesse caso, relembrar os grandes sucessos não têm relação com repetir a fórmula que deu certo, mas compartilhar o legado histórico em meio aos desafios.

“Esse legado é histórico e permanente, para sempre. Na cidade de Salvador nunca se viu um grupo com tantos anos de existência, como o Bando. Um grupo de teatro negro, assumidamente negro, falando das questões negras. Como um grupo de 30 anos ainda está na ativa, sem patrocínio e apoio? Através disso dessa união, das questões socioculturais que a gente impõe”, pontuou Ednaldo Muniz, um dos atores do grupo.

Marry conta que um dos principais problemas que a companhia enfrenta durante toda jornada é a falta de patrocínio.

“Trinta anos de labuta, militância e nada. Nada de patrocínio. O reconhecimento que a gente tem é da resistência de saber o que está falando. Para mim, 30 anos é para entender porque a gente resiste. Quando a gente percebe que não tem o patrocínio a gente amadurece um ao outro para continuar. E a gente continua”, diz.

Apesar disso, a força e importância do trabalho que realizam motiva todos os dias a equipe, para que a arte com militância continue. Ainda não há um calendário comemorativo, mas Jorge afirma que uma série de programações, como montagem de clássico, está prevista para celebrar as três décadas.

“É um sentimento de que estamos no caminho certo. Os desafios são cada vez maiores. A expectativa para esses 30 anos é grande. A gente vai revisitar o repertório, remontar alguns espetáculos dessa jornada. A gente tem o desejo de montar um clássico do teatro mundial, mas, por hora, não podemos falar ainda”, concluiu Jorge.

 
 
 
 

Por Phael Fernandes e Danutta Rodrigues, G1 BA